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Inaceitável (Fifi, F65)

12/11/2017


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Inaceitável - Roberto Rodrigues*, O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 05h00

No dia 2 deste mês aconteceu no município de Correntina, na Bahia, um fato assustador: centenas de pessoas (seriam mais de 500) transportadas por ônibus, caminhonetes e caminhões invadiram uma propriedade rural altamente produtiva e destruíram e/ou incendiaram tudo o que havia de equipamentos essenciais para a atividade. Instalações e benfeitorias, máquinas agrícolas (tratores, implementos e colhedeiras), bombas, tubulações e pivôs centrais para irrigação, a estrutura de postes e transformadores, tudo ruidosamente arrebentado como se pode constatar por imagens impressionantes que circularam nas mídias sociais e nos noticiários televisivos. 

A “explicação” ou a motivação para o vandalismo absurdo seria a fazenda irrigar suas plantações com água do Rio Arrojado, o que comprometeria o abastecimento urbano e dos ribeirinhos. 

Vamos aos fatos.  

Os proprietários da área, produtores profissionais competentes, tomaram todas as providências legais, técnicas e institucionais para procederem à irrigação de suas culturas, que são: alho, batata, cebola, cenoura, feijão, milho, soja e tomate (60% da batata consumida no Nordeste do Brasil seria produzida na região). Todas as licenças ambientais foram concedidas, as outorgas de água também, sempre com projetos meticulosamente avaliados pelos exigentes órgãos ambientais do Estado, e sob critérios técnicos rigorosos quanto ao volume de água que pode ser usado sem prejuízo de abastecimento de cidades, vilas, aglomerações ou ribeirinhos. Assim, não é verdade que faltaria água. 
Dados da FAO de 2014 mostram que o Brasil tem apenas 5,4 milhões de hectares irrigados, que representam 6,2% de toda a área agricultada do País. Os Estados Unidos irrigam 26,7 milhões de hectares, 17% de toda a área cultivada, e a União Europeia irriga 18,7 milhões de hectares, 15,5% do total utilizado. Por outro lado, a ANA informa que em 2016 já tínhamos 6,9 milhões de hectares irrigados, ou 8,2% da área total agricultada. 

Está claro que temos uma área irrigada proporcionalmente muito menor que a de nossos grandes concorrentes, e o Brasil dispõe de mais de 15% da água doce do mundo, o que nos confere um potencial de irrigação muito maior, apesar dessa água ser mal distribuída no território. Mas isso não é um impedimento, como mostra a obra de transposição do Rio São Francisco. 
Por último, uma questão essencial: há uma estatística global de que 70% da água disponível é usada pela agricultura. Mas vejamos o que é isso. Um pé de milho, por exemplo, tem cerca de 60% de água em sua estrutura. Mas quando o ciclo termina, o mesmo pé de milho seca, e se desintegra. Ora, onde foi parar aquela água toda? Voltou para a natureza, sob as mais diversas formas. E filtrada! A única água efetivamente “exportada” pela planta e extraída da terra, é a que está no grão de milho colhido. E para onde vai esse milho? Para o consumo humano, seja diretamente, sob a forma de farinha ou farelo, seja indiretamente, sob a forma de proteína animal (carnes de frangos, de suínos ou leite e seus derivados) que é o grão transformado. Portanto, a agricultura não consome toda a água: ela usa a água, a recicla e devolve sua maior parte à natureza. 

Sendo assim, os argumentos para a violenta destruição não são verdadeiros. Mas mesmo que fossem, não é aceitável o que aconteceu. O que há de fato por trás disso? Que interesses reais convenceram boa parte dos inocentes agressores que se somaram a bandidos da pior espécie para essa agressão inaceitável? Quem pagou os meios de transporte usados? Que objetivos tinham os financiadores do vandalismo? E quem vai pagar os prejuízos? 

Eis o que precisa ser investigado. E essa investigação precisa ser conduzida por órgãos públicos, municipais, estaduais e até federais. Não se pode admitir essa forma de “manifestação” baderneira e destrutiva, independentemente da ideologia dos governantes e de outras entidades envolvidas no lamentável incidente. É preciso impor a ordem! 

*(FIFI; F65) EX-MINISTRO DA AGRICULTURA E COORDENADOR DO CENTRO DE AGRONEGÓCIOS DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS, SOCIO MANTENEDOR DA ADEALQ, EX MORADOR DA REPUBLICA MOSTEIRO
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