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Tendências para a agricultura na agenda do desenvolvimento sustentável (Arroba; F03)

25/04/2018 - Por luiz antonio gonçalves r.de souza
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Recentemente fui solicitado a refletir sobre as tendências da agricultura para o futuro próximo e a agenda 2030 e quero aqui compartilhar essas perspectivas. Essa agenda 2030 é o conjunto de prioridades que os países membros das Nações Unidas acordaram para alcançar o desenvolvimento sustentável.

Governos, empresas e organizações da sociedade civil estão buscando ajustar suas atividades aos chamados Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). No Brasil, como o agronegócio é um dos setores importantes da economia, com grande inserção nas cadeias globais, daí se esperam esforços para o seu alinhamento aos ODS.

Dada a diversidade da agricultura brasileira, para as metas de 2030 alguns setores evoluirão mais rapidamente incorporando novas práticas, métodos e conceitos, em resposta às mudanças nos paradigmas que orientam a agricultura e a alimentação. O ponto principal desses avanços será a ciência e tecnologia com foco na inovação sustentável e no uso eficiente de recursos escassos, de forma colaborativa, aproveitando as possíveis sinergias.

Dado o potencial exportador desse setor no Brasil, a integração às cadeias globais de valor continuará tendo importância e gerará demanda de compliance por padrões ambientais e sociais vindos dos países importadores.

Ainda assim, mesmo com um recrudescimento do protecionismo na agenda mundial, há espaço para avanço na retirada de barreiras e subsídios distorcivos que levam, inclusive, a um mau uso de recursos naturais.

A agricultura brasileira possui, ademais, a peculiaridade de ter dentro da porteira áreas de preservação custeadas pela produção, como a reserva legal e as áreas de preservação permanente em margens de rio, que contribuem com o clima e com a biodiversidade. Muito foi feito, mas para avançar nessa agenda é preciso continuar implementando o Programa de Regularização Ambiental (PRA) a partir do Cadastro Ambiental Rural (CAR).

No que tange à bioenergia, com as inovações do biocombustível de 2ª geração, que aproveita partes das plantas que antes eram descartadas, como a palha, a produção de energia será mais eficiente, usando menos terra, menos água e menos insumos.

Da mesma forma, a eletricidade a partir da biomassa (bagaço de cana), que hoje já é a segunda fonte nacional de energia no sistema elétrico nacional, com 54 TWh (2016), tende a crescer e se consolidar.

A depender das escolhas do futuro, se houver uma prioridade da célula a hidrogênio sobre baterias de lítio, os carros elétricos poderão ser alimentados indiretamente por essa bioenergia. Associados à bioenergia, os biopolímeros, que substituem plásticos derivados de petróleo, se consolidarão, estimulando, assim, a produção de matéria-prima sustentável pela agricultura.

Com as mudanças climáticas, será essencial avançar na resiliência da agricultura e no gerenciamento de riscos climáticos. A agricultura de baixo carbono com tecnologias resilientes, como o plantio direto e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (as quais resistem melhor aos efeitos das secas e ajudam a estocar gases de efeito estufa), terá de se difundir mais rapidamente.

Além das técnicas de manejo e do uso eficiente da informação climática, novas tecnologias de melhoramento de plantas, como o CRISPR, vão possibilitar explorar novas variedades de plantas e novas características nos rebanhos, que serão mais resistentes aos efeitos das mudanças climáticas.

Outra tendência é que as ferramentas da agricultura de precisão somadas aos avanços da internet das coisas (IoT) possibilitarão o uso mais eficiente de recursos escassos. Ferramentas da tecnologia da informação aliadas à mecânica de precisão já facilitam hoje a economia de fertilizantes, agroquímicos, sementes, água. Assim, com o avanço da inteligência artificial e com o aumento da disponibilidade de dados, as possibilidades são inúmeras para a reorganização dos fluxos de trabalho.

Espera-se, como movimento paralelo, a busca dos consumidores por produtos de comunidades tradicionais ou locais que tenham significado de conceito para além do preço e da aparência. Produtos que reflitam alguma realidade local, que estejam ligados à sociobiodiversidade, terão mais apelo junto ao consumidor esclarecido.

Há, nessa tendência, a possibilidade de incorporação de melhor qualidade das comunidades locais e tradicionais aos mercados, gerando mais renda, empoderando as mulheres e valorizando os recursos genéticos e o conhecimento tradicional associado.

Também ganhará importância a busca por alimentos mais saudáveis e que levem em conta o bem-estar dos animais nos processos produtivos. Assim, os produtos que a agropecuária produz e a agroindústria processa serão mais escrutinados sobre eventuais efeitos na saúde humana e sobre o bem-estar animal. Essa preocupação será incorporada ao longo das cadeias produtivas e servirá como parâmetro para a produção agropecuária.

Por fim, importante lembrar que há uma tendência à universalização da responsabilidade corporativa em todos os elos da cadeia produtiva. Isso deve levar à valorização de uma agricultura que, além de produzir respeitando o meio ambiente, seja capaz de integrar a mulher e o jovem em suas estruturas e, principalmente, reconhecer suas vozes nos processos decisórios.

Uma agricultura que, diante do envelhecimento das populações rurais, seja capaz de atrair jovens para a inovação do setor e que para isso tenha um ambiente tolerante com a diversidade e aberto ao diálogo. Esses são os desafios postos para que a agricultura avance em direção à agenda 2030. É preciso direcionar esforços de governo, empresas e sociedade civil para concretizar os avanços necessários para manter a competitividade do setor e para contribui para o desenvolvimento do país.

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