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A separação institucional do departamento de economia da ESALQ é um erro estratégico (Lagarto; F90)

14/07/2019 - Por alexandre lahoz mendonça de barros
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Estratégia é, em essência, escolha. 

Toda Instituição tem que fazer escolha sobre seu futuro. As escolhas se dão em ambiente de incerteza e é certo que é impossível se saber a priori se as escolhas estratégicas feitas por qualquer empresa ou Instituição serão as mais adequadas. 

Formei-me em Engenharia Agronômica na ESALQ em 1990. Ingressei no mestrado de Economia Agrícola no Departamento de Economia, Administração e Sociologia da ESALQ no ano seguinte. Tive um curso de excepcional qualidade. Entretanto, àquela época a Economia Agrícola vivia um período de crise como ciência. Eram tempos que marcavam o sucesso decorrente da revolução tecnológica na agricultura, a chamada Revolução Verde. As modernas variedades desenvolvidas nos países ricos e adaptadas às regiões subdesenvolvidas permitiram, junto com o setor de fertilizantes, agroquímicos e de máquinas, substancial elevação da produtividade e da produção de alimentos. O diagnóstico dominante era que o problema da produção de alimentos já não existia mais. A ciência tinha conseguido compensar a restrição de recursos naturais e elevar a produção de grãos e carnes em níveis historicamente impressionantes. A fome era vista como um problema de renda e não de oferta. A oferta agrícola foi a rainha do equilíbrio de mercado no século XX, promovendo substancial queda secular nos preços dos alimentos (1) O mundo passava por um desmonte nas políticas agrícolas clássicas (preços mínimos, estoques reguladores, subsídios aos insumos modernos). A profissão de economista agrícola parecia em extinção.

A redução no interesse à pesquisa em economia agrícola fazia com que os recursos migrassem para outras demandas. Surgia o interesse pelo meio-ambiente, pela gestão de recursos naturais, por pesquisas sociais de saúde, nutrição, distribuição de renda. Nos Estados Unidos diversos departamentos de Economia Agrícola alteravam de nome para tentar sobreviver às mudanças na demanda. Passavam a se chamar de Economia Aplicada, Economia de Recursos Naturais. No Departamento de Economia, Administração e Sociologia da ESALQ não foi diferente. O mestrado e doutorado do qual fazia parte passou a ser chamado de Economia Aplicada. Simultaneamente a esse movimento na pós-graduação do departamento iniciava-se processo da criação do Curso de Economia Agroindustrial. O departamento era grande, tinha professores em diversas áreas da economia e justificava-se criar um curso para formar profissionais na área de economia. O momento da criação do curso de economia possibilitou algo excepcional e raro aos alunos de engenharia agronômica. De repente surgiram diversas matérias em economia que podiam ser assistidas pelos alunos de agronomia. Abriu-se um leque bastante sofisticado de conhecimento aos agrônomos que seguramente não existia em outras escolas de ciências agrárias. O desenvolvimento desses profissionais podia ser completado por um programa de mestrado e doutorado que possibilitava ao profissional de engenharia agronômica se diferenciar no mercado de trabalho. Diversos profissionais formados nessa época se destacaram em empresas e universidades do país.

Ocorre que as Instituições são dinâmicas e as coisas vão tomando forma progressivamente e, por vezes, alteram o ciclo das coisas. Conforme o curso de Economia foi tomando corpo as matérias foram ficando mais avançadas e passou-se a exigir pré-requisitos para que as matérias mais avançadas pudessem ser cursadas. Naturalmente, ao se exigir muitos pré-requisitos para uma matéria torna-se mais difícil aos alunos de outras formações fazerem os cursos de economia. Dessa maneira, a quantidade de alunos de Engenharia Agronômica que cursavam as matérias de economia foi reduzindo, concentrando-se naqueles que fazem a área de especialização. Ao mesmo tempo, na pós-graduação, tomou-se a decisão de selecionar os alunos de acordo com o exame da ANPEC, que é o exame feito pela Ordem dos Economistas para as pós-graduações em Economia no Brasil. É um exame feito apenas no Brasil e em minha opinião uma barreira a entrada a profissionais de outras áreas nos mestrados de economia. Sempre achei curioso que nos programas nos Estados Unidos e Inglaterra não há nada parecido com a ANPEC para selecionar alunos para os programas. O exame requerido é de proficiência em inglês e matemática, além da carta de recomendação, da aplicação e da entrevista do candidato. No Brasil o exame da ANPEC requer conhecimento relativamente avançado em Microeconomia, Macroeconomia, Economia Brasileira, Matemática e Estatística. A maior parte dos economistas faz o curso preparatório da ANPEC para estudar as matérias e provas a serem feitas. Obviamente, para um Engenheiro Agrônomo é preciso se dedicar bastante para tentar o exame. Essa dificuldade restringe, mas não impede o acesso ao programa de pós-graduação. Por fim, é natural que com o desenvolvimento do curso de Economia e posteriormente de Administração que novos professores sejam contratados. Muitos desses professores têm formação em Economia e Administração, o que é muito bem-vindo por arejar o Departamento, trazer conhecimento específico de áreas complexas. Não há dúvida que essa formação diferenciada contribui sobremaneira para o desenvolvimento dos profissionais a serem formados. Entretanto, é forçoso reconhecer que esses profissionais em geral conhecem muito pouco de agronomia. E isso tende a distanciar o conhecimento da economia agrícola, coisa que já se vinha desenhando desde os anos 90, como comentei acima.

Há um ditado árabe que diz "o Homem planeja e Deus dá risada". Pois bem. Eis que por volta de 2007 os preços agrícolas começaram a explodir. Sem aparentemente muita explicação o mundo passou a assistir os preços dos alimentos dobrarem, triplicarem, quadruplicarem em um curto espaço de tempo. O problema da inflação de alimentos tomou as primeiras páginas de todas as publicações relevantes do mundo. A tendência secular de queda dos preços dos alimentos parecia ter chegado ao fim. Os economistas agrícolas foram, então, chamados a tentar explicar o novo momento. Curiosamente, as análises internacionais tiveram que partir de profissionais que estavam a caminho da aposentadoria. Os economistas agrícolas no Brasil e no mundo tinham escasseado. Nossa profissão encontrou rápido a resposta. A transformação econômica da Ásia (especialmente da China) e do Oriente Médio trouxe um novo padrão de demanda. A elevação no consumo de proteína animal em parcela respeitável da humanidade exigia que a produção de grãos crescesse rapidamente. Ao mesmo tempo, o biocombustível passava a ser parte crescente da produção agrícola. O fim das políticas públicas de carregamento de estoques fez com que o nível de grãos armazenados no mundo caísse. Esse fato, associado à forte demanda fazia com que os preços agrícolas ficassem especialmente voláteis. A maior volatilidade associado ao movimento macroeconômico mundial de elevação da liquidez fez com que diversos fundos de hedge deslocassem seus investimentos aos mercados agrícolas. A combinação de todos esses vetores trouxe a produção de alimentos para o centro das preocupações globais. A Economia Agrícola como ciência voltava a ser relevante. 

Esse movimento internacional trouxe o Brasil para o centro do tabuleiro. O país é hoje imprescindível para o equilíbrio de oferta e demanda de alimentos no mundo. Tornou-se muito relevante do ponto de vista geopolítico. Somos o maior saldo comercial agrícola do mundo. O maior parceiro comercial agrícola da China. O agronegócio brasileiro constitui o único setor da economia brasileira que vai bem. É o único setor dinâmico, de aumento consistente da produtividade. Somos exemplo para os demais setores da economia. As políticas econômicas brasileiras devem se inspirar no modelo econômico do agro brasileiro. O agronegócio responde por 25 % do PIB. É o maior setor da economia do país. Um terço dos brasileiros vive do agronegócio. O superávit comercial se deve a agropecuária brasileira.

É nesse contexto macro que a ESALQ se insere. Está entre as maiores instituições de ciências agrárias do mundo, em um dos principais países agrícolas do mundo. A agricultura passa por uma nova revolução tecnológica. Inúmeras tecnologias em diferentes ramos da agricultura vêm surgindo. Big data, data analytics, inteligência artificial podem ser utilizadas em todas as áreas de conhecimento da agricultura. É nesse ambiente que o Departamento de Economia, Administração e Sociologia da ESALQ se insere. A economia agrícola voltou ao centro de análise no Brasil e no mundo. Não há no país nenhum "think thank" (perdoem-me o anglicismo) de economia agrícola no país. Outras instituições de ensino estão correndo atrás tentando construir essa escola de pensamento. A FGV montou um grupo para pesquisar economia agrícola. O IBMEC começou um projeto para pensar o Agro brasileiro. O Departamento de Economia da ESALQ tem uma vantagem competitiva imbatível para entender os reais problemas agrícolas brasileiros. Está umbilicalmente ligada a uma das maiores fontes de informação de problemas agrícolas que estão representados nas diferentes áreas das ciências agrárias da ESALQ. São departamentos de alto nível que convivem com os reais problemas agrícolas brasileiros. Os novos professores do departamento que tenham formação em economia ou administração desconhecem os princípios das ciências agrárias. Precisam beber na fonte dessa área do conhecimento para se diferenciar dos demais departamentos de economia do país. Que outra instituição de economia no Brasil tem semelhante vantagem competitiva? Separar-se institucionalmente da ESALQ é um grave erro estratégico. Uma escolha equivocada.

 

Alexandre Lahóz Mendonça de Barros (Lagarto; F90) Sócio Diretor da MB Agro. Ex morador da República Mata Burro

 

P.S.

Uma nota pessoal. Guardo enorme gratidão e respeito ao Departamento de Economia, Administração e Sociologia da ESALQ. Devo muito de minha formação como profissional ao Departamento. Dediquei 10 anos de minha carreira profissional como professor do departamento. Aprendi e trabalhei junto com diversos dos professores que seguem hoje lecionando no LES. Participei de inúmeras bancas de graduação, mestrado, doutorado. Orientei muitos alunos de graduação e pós-graduação. Sei muito bem o trabalho que dá lecionar em uma escola de alto nível como a ESALQ. Minhas opiniões expressas acima têm o único intuito de contribuir da melhor maneira possível para o sucesso de um projeto tão nobre sonhado e edificado por muitos professores. Peço desculpas aos leitores, por fim, por um texto tão longo. É que o tema me é muito caro.

 

1) Para quem se interessar pelo assunto recomendo fortemente o trabalho de Jacks, D. (2013). From boom to bust: a typology of real commodity prices in the long run. NBER Working Paper Series, Number 18874. http://www.nber.org/papers/w18874

 

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