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Até que a morte nos separe!!! (Pedagio; F91)

02/08/2019 - Por luiz claudio rodrigues de carvalho
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A comunidade esalqueana se lançou, nas últimas semanas, em um amplo debate sobre a criação de uma nova unidade no Campus de Piracicaba, a se chamar "Escola de Economia, Administração e Sociologia Luiz de Queiroz - EEASLQ", resultado da separação do Departamento de Economia, Administração e Sociologia - LES, hoje integrante da ESALQ, que seria extinto.

Vivemos em um país democrático, em uma sociedade livre e aberta ao debate. Neste ambiente me sinto à vontade para expressar minha opinião de esalqueano, ainda que há muitos anos distante do dia a dia da nossa Gloriosa Escola. Neste país tão carente de respeito ao nobre oficio de ensinar, inicio declarando todo o meu respeito aos mestres professores que contribuíram com a minha formação de Engenheiro Agrônomo pela ESALQ. Nada do que disser abaixo tem o objetivo de constranger ou mesmo ofender qualquer dos Senhores e das Senhoras. Busco apenas mostrar de forma nua e crua, direta e sem rodeios, minha opinião a respeito deste tema.

Baseio minhas posições na informações disponíveis no sitio da ADEALQ, nos depoimentos de professores que gentilmente se dispuseram a expor suas posições e opiniões, a favor e contra o projeto, e principalmente no documento "Proposta Consolidada de Criação de Nova Unidade no Campus da USP em Piracicaba".

Quero começar tratando da formação acadêmica e profissional dos alunos egressos de nossa Escola. Para tanto, uso meu próprio exemplo.

Sou Engenheiro Agrônomo, formado em 1991, tendo feito estagio no Departamento de Economia nos dois últimos anos de minha graduação, sob a coordenação dos Professores Vavá e Carlos Bacha. Lembro com saudades dos tempos em que acompanhava o mercado de arroz, para escrever análises que eram publicadas no Jornal de Piracicaba. Aprendi a ler jornais especializados em economia e finanças folheando as páginas da saudosa Gazeta Mercantil. Complementei minha formação acadêmica com uma nova graduação, na área do Direito, formado em 2010.

Quando me perguntam qual a minha formação acadêmica, declaro com o maior orgulho que sou um Engenheiro Agrônomo, com formação em Direito e que, por acaso, me tornei um gestor público especializado em finanças públicas. Eu não sou um Advogado, com formação em finanças públicas e que se interessa pelos assuntos da terra.

A ESALQ é hoje uma das melhores Universidades do mundo nas ciências agrárias. Esta conquista não é mérito de nenhum Departamento em especial, sendo uma conquista da coletividade esalqueana construída a custa de quase 120 anos de trabalho árduo. Cada um de nós tem seu quinhão de responsabilidade nesta conquista.

A proposta de criação da nova unidade traz promessas de manutenção da oferta de disciplinas nas áreas de economia, administração e sociologia aos alunos de fora da EEASLQ. Juras de amor eterno e de unidade até que a morte nos separe com certeza também foram feitas quando da criação do curso de Ciências Econômicas, em 1998.

Estas promessas de nada valem. O mundo muda; as circunstâncias, também.

Em algum momento, num futuro próximo, os nossos economistas e administradores se cansarão de ministrar aulas de Introdução à Economia, ou de Introdução à Administração, ou de Introdução à Sociologia, àqueles alunos de modos rudes, de botinas e canivetes na cinta, que não tem o olhar sofisticado necessário para raciocinar sobre modelos econométricos de predição aplicados à Economia Comportamental. Afinal, o próprio comportamento deles é inadequado neste ambiente de elevado saber teórico.

Quando isto acontecer, a Estrada de Monte Alegre, que corta o campus da ESALQ, se transformará na Zona Desmilitarizada que separará duas concepções distintas de mundo, irreconciliáveis.

Não me parece mera coincidência que esta proposta de criação da EEASLQ tenha sido aprovada no ano de 2013, época em que alguns professores moviam ampla campanha difamatória contra a vida em República, uma das mais importantes instituições da nossa ESALQ. A vida em República traz a oportunidade do compartilhamento do espaço físico de moradia, da convivência fraterna, do conhecimento mútuo, da construção de visões harmônicas de mundo. As amizades nascidas na vida em República são para toda a vida; estas sim, até que a morte nos separe.

A proposta de separação da ESALQ em duas unidades se baseia na idéia oposta, na visão de um mundo segregado de oportunidades exclusivistas. Nossos futuros economistas e administradores ostentarão o sobrenome "Luiz de Queiroz", mas não mais precisarão dividir o espaço no mercado de trabalho com Engenheiros Agrônomos e Engenheiros Florestais. Estes últimos serão seres diferentes, formados em outra "Escola".

Há ainda a questão das receitas extra-orçamentárias, da ordem de R$ 42 milhões por ano, auferidas pelo atual Departamento de Economia, Administração e Sociologia e que correspondem a mais de 50% das receitas totais obtidas pela ESALQ nesta modalidade. Esta talvez seja a questão mais importante e para a qual devemos dirigir nosso olhar mais atento. Com a criação da nova unidade, estas verbas serão geridas sem necessidade de compartilhamento com outros departamentos, menos lucrativos. A USP não vive mais a aguda crise financeira de anos recentes, mas não podemos perder de vista que as restrições orçamentárias serão sempre um pesadelo para qualquer gestor de Universidade Pública. A sociedade não está disposta a pagar ainda mais impostos para financiar o ensino superior gratuito. Devemos lembrar o exemplo do renomado CEPEA, origem de grande parte dessas receitas extra-orçamentárias, que chegou a essa posição pelos braços e pela competência de seus quadros, mas também porque ostenta o sobrenome ESALQ. Se o problema é a geração desigual de caixa, a ser compartilhada igualmente entre as diversas áreas, que o Departamento de Economia cumpra sua vocação natural de bom gestor e auxilie os demais Departamentos da ESALQ a criar produtos de interesse do mercado, que também proporcionem novas receitas extra-orçamentárias.

Por fim, nós estamos diante da oportunidade histórica de agregar ainda mais valor à nossa formação acadêmica e profissional. O mundo caminha a passo largos para a Economia do Conhecimento. A Ciência de Dados (Data Analitics, Inteligência Artificial e seus consequentes) são a fronteira da nova Revolução Industrial. As AgroTechs, startups de tecnologia aplicada ao Agronegócio, são uma realidade e crescem a ritmo alucinante. A cidade de Piracicaba é o Vale do Silício do Agronegócio brasileiro. Basta olhar para o outro lado do Rio Piracicaba.

Grande parte destas empresas, no entanto, hoje é constituída por Engenheiros e Técnicos formados em outras especialidades e em outras Faculdades. Estamos perdendo terreno nesta seara. Se há algo realmente importante com que o Departamento de Economia deve se preocupar é com a melhor forma de se inserir neste campo do conhecimento. Esta inserção é que deve canalizar nossos melhores esforços. A menos que também aqui o objetivo seja criar acesso exclusivo e privilegiado aos economistas e administradores formados na nova "Escola".

O que nos trouxe até aqui, nós, a ESALQ, a uma posição entre as melhores Universidades do mundo em ciências agrárias, foi a formação acadêmica holística e integral de nossos alunos. O que nos colocou, nós, esalqueanos, entre os maiores responsáveis por transformar o Brasil na maior potência agro-florestal e de produção animal do mundo foi o fato de que não deixamos de fora nenhuma área do conhecimento cientifico afeta à nossa área de atuação profissional.

Rogo ao Sr. Professor Durval e aos demais integrantes da Douta Congregação da ESALQ, aos quais cabe a decisão final quanto a tão controvertido tema, que reflitam com profundidade sobre a responsabilidade da vossa decisão. Todos nós aguardamos com enorme preocupação e ansiedade o desenlace deste debate.

Tenho a convicção de que dessa profunda reflexão virá a sábia decisão de permanecermos unidos. Aí sim, até que a morte nos separe.

 

Luiz Claudio Rodrigues de Carvalho - Pedágio F91

Engenheiro Agrônomo

Morador da República Kpixama

Atual Secretário da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro

Ex-Secretário da Fazenda do Estado de São Paulo

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