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Feliz Ano Novo

29/12/2019 - Por fernando de mesquita sampaio
Atenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.

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Você já viu alguém com fome?
Você já conheceu um produtor rural que teve sua propriedade invadida e espoliada?
Já conversou com um assentado há 30 anos esperando um título de posse de sua terra?
Já viu um homem crescido chorar por ter falido a empresa de seus pais por conta de crises econômicas e regras absurdas?
Já viu crianças incapazes de aprender algo na escola por subnutrição e vermes?
Já viu um caminhoneiro dono de uma carreta de meio milhão de reais sem ter como pagar comida no posto por ter gasto seu dinheiro com diesel e pedágios?
Já perdeu amigos que viajavam a trabalho em estradas perigosas e mal sinalizadas?
Já olhou nos olhos de um indígena cujo filho adolescente acabou de morrer por uma doença que seria facilmente curável caso houvesse atendimento à disposição?
Já conheceu gente ameaçada de morte?
Já conheceu funcionários públicos dedicados e empenhados em trabalhar pelo interesse público, contra todas pressões?
Já conversou com gente que teve a coragem de ir viver em lugares distantes e inóspitos em busca de oportunidades?
Já viu famílias dilaceradas por drogas?
Já conheceu gente que tira seu sustento da floresta?
Já viu a Justiça sendo usada para produzir injustiças?
Já viu gente honesta sendo humilhada por exigências da burocracia e do “mercado” que não lhe dizem respeito?
Meninos eu vi.
E estou cansado de gente que acha que sabe tudo sem ter visto nada.
Estou cansado de quem trata política como torcida de futebol.
Estou cansado de quem arrota meritocracia sem ter saído do SUS e da escola pública como linha de base.
Estou cansado de gente que prega livre mercado mas que por trás dos panos trocaria a mãe por barreiras tarifárias e crédito subsidiado.
De gente que acha que pode ditar a vida dos outros de confortáveis gabinetes.
De quem quer impor sua visão de mundo ao resto da humanidade.
Das fake news e dos robôs.
Da idolatria com pés de barro.
De quem pratica o oposto de seus discursos.
Da arrogância.
Do ódio.
Este Game of Thrones de facções movidas a algoritmos e desinformação em que se transformou nossa política e nossa sociedade dificilmente nos fará chegar a algum lugar. Evangélicos, comunistas, verdes, minions, ruralistas. Alguém seriamente acha que alguma pessoa possa ser reduzida a um rótulo? A uma história única como ensina Chimamanda Adichie?
Se há algo que desejo ao mundo em 2020 é mais humildade e mais humanidade. Mais capacidade de se pôr na pele do outro. Compaixão enfim. Do latim compassio, ou a capacidade de sentir junto a dor alheia.
Se há um futuro comum que possa ser construído, ele só o será na base da colaboração e da compaixão.
E no meu mundinho, também vi muita gente capaz de fazer isso. Produtores ambientalistas, políticas públicas inteligentes, assentados empreendedores, indígenas produtores, redes de colaboração, jovens inovadores, empresas transformadoras, pesquisadores dedicados. Sim, nós podemos.
A questão é se queremos.

Quando perguntaram ao sábio hindu Ramana Maharsi como tratar os outros, ele respondeu: não existem outros.

Feliz ano novo!

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