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ODS: o que nós, agrônomo(a)s, temos a ver com isso? (Flora; F90)

30/08/2019 - Por daniela biaggioni lopes
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Quando a gente começa a focar a atenção e a energia em um assunto, parece que começa a notá-lo em todos os lugares, você faz as conexões entre ele e tudo o que te cerca. É a minha experiência com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, desde que entrei em contato com a Agenda 2030, no início de 2016. Atuando na área estratégica da Embrapa, percebemos logo que a Agenda é um terreno fértil de oportunidades para a agricultura brasileira avançar ainda mais no caminho da sustentabilidade. Passei a enxergar os quadradinhos coloridos em todos os lugares, documentos, eventos, sites nacionais e internacionais, aeroportos, políticas públicas...

Se você não sabe do que estou falando, por favor dê uma olhada aqui.  A Agenda 2030, que foi tornada pública pela ONU em outubro de 2015, pelo documento Transforming our World, começou a ser elaborada e discutida na Rio+20, em 2012. Foram três anos de muita negociação e ampla participação de governos e representações da sociedade civil global. Os 17 ODS são o cerne da Agenda, o resultado que se espera, mas estão ancorados em uma declaração de visão e princípios, em como fazer (meios e parcerias de implementação) e em processo de monitoramento e avaliação (governança e indicadores).

De distopias já estamos repletos, nem precisa de Black Mirror. Neste contexto, focar além da conjuntura, ver propósito em grandes missões pode fazer bem à saúde mental. A Agenda 2030 vai por esse caminho, é uma agenda aspiracional e trata do futuro que queremos. Baseia-se em valores civilizatórios, norteia para o desenvolvimento humano e social (bem-estar e prosperidade) em equilíbrio com os limites do planeta. Pode parecer missão impossível, 2030 está muito longe, mas a Agenda é uma matriz bastante concreta de problemas globais e metas de enfrentamento, focada em ação.

Os problemas tratados nos ODS têm grande relevância nacional, e trazem amplas oportunidades para evidenciar o papel da agricultura sustentável e segurança alimentar/nutricional para o alcance dos objetivos, principalmente pensando em um contexto de bieoconomia sustentável. Outras agendas globais (clima, biodiversidade, desenvolvimento urbano) estão convergindo para essa, o que gera perspectivas de parcerias e de confluência de recursos financeiros (públicos e privados). Há e haverá pedras no caminho, mas quem se organizar vai saber aproveitar.

Recentemente falei sobre "Agronomia e os ODS" a convite do Congresso Brasileiro de Agronomia 2019, no Rio de Janeiro. Vou reproduzir aqui um pouco da minha argumentação no evento, destacando dois pontos principais que trazem oportunidades para atuação do profissional da Engenharia Agronômica: 1. a abordagem integrada do conjunto de objetivos, suas metas e indicadores e 2. a centralidade dos sistemas agroalimentares sustentáveis nessa matriz de objetivos.

Um dos princípios orientadores da Agenda é a abordagem integrada para o desenvolvimento sustentável, uma lógica sistêmica embutida no desenho dos objetivos e metas. Os ODS são integrados e indivisíveis, e equilibram as três dimensões do desenvolvimento sustentável, a econômica, a social e a ambiental. O tal banquinho de três pernas. Parece até banal, hoje, lembrar que sustentabilidade é um tripé, mas essa maneira de ver o conjunto de objetivos e metas explicita o óbvio: a complexa realidade da experiência humana no mundo. Ou seja, aproximar-se dessa complexidade, sem medo (afinal, somos engenheiros!), pode tornar a nossa ação mais efetiva, seja no setor privado ou no público. As sinergias e os conflitos entre os objetivos e suas metas (os chamados 'nexos') são inerentes a essa complexidade; o entendimento do potencial destas sinergias e o enfrentamento dos conflitos são essencial para os avanços desejados, pois tendem a aumentar o grau de consciência da sociedade sobre esses problemas e as soluções disponíveis/desejadas.

Como traduzir essa abordagem integrada? Um exemplo[1] relacionado a um dos nexos mais evidentes, o nexo água-alimento-energia: a uso de energia solar na propriedade (ODS 7) permite que pequenos produtores possam ter energia barata para acessar água subterrânea (ODS 6) para a produção de alimentos (ODS 2), com reflexos na diminuição da pobreza rural (ODS1). Na Índia, tem havido uma grande expansão desse tipo de irrigação. Em áreas mais densamente populadas, no entanto, vislumbra-se que a médio/longo prazo esta facilidade de acesso possa levar ao esgotamento da água nestas áreas. Considerar as sinergias e conflitos para promover uma agricultura sustentável convida a uma ação mais efetiva, não só com a preocupação de irrigar um campo, mas sim pensar no uso e manejo de água para o sistema agrícola na bacia ou região e como isso favorece o aumento de renda e bem-estar destas populações.

Outro nexo muito claro é entre alimentação (ODS 2) e saúde (ODS 3). Sinergia quando falamos em alimentos saudáveis, seu papel na prevenção de doenças e enfrentamento da desnutrição. Conflitos quando se olham os gastos com o tratamento de doenças crônicas não-transmissíveis como a diabetes e doenças cardiovasculares, relacionadas a dietas inadequadas, ou à questões de contaminação (química ou biológica) de alimentos. Questões que impactam positiva ou negativamente a percepção de consumidores sobre os produtos agrícolas e seus sistemas de produção (veja toda a movimentação em torno de proteínas alternativas e leites vegetais, por exemplo) e que suscitam debates importantes entre as partes interessadas. Inclua agora nesse nexo também a questão da mitigação dos gases de efeito estufa (ODS 13) para refletir sobre as preocupações mundiais com o seu churrasco do final de semana...

Só mais um exemplo, focando na sinergia entre objetivos: a tecnologia social da fossa séptica biodigestora. O Brasil possui aproximadamente 31 milhões de habitantes morando na área rural e comunidades isoladas (IBGE, 2013), e dessa população, cerca de 24 milhões de brasileiros ainda sofrem com o problema crônico e grave da falta de saneamento básico. A fossa séptica biodigestora, desenvolvida pela Embrapa Instrumentação em 2001, vem sendo utilizada como alternativa viável para o saneamento rural e em 2018 foi incorporada à Política Nacional de Habitação Rural. É uma tecnologia que permite a reciclagem de dejetos humanos (ODS 12), evita a contaminação de águas superficiais e subterrâneas (ODS 6) e ainda fornece resíduos que podem ser utilizados como adubo orgânico (ODS 2). Para se ter uma ideia, entre vários impactos positivos (ambientais, sociais e econômicos) do uso das fossas, um dos impactos estimados da adoção desta tecnologia é uma redução anual de 5 milhões de casos de diarreia e 2500 mortes (ODS 3). No mundo, são um bilhão de pessoas sem saneamento, 90% destas vivendo em zona rural. Então dá para imaginarmos o potencial de 'exportação' deste tipo de tecnologia.

Só pelos exemplos acima, já vai ficando claro o meu segundo ponto de destaque: a agricultura[2], seus produtos, seus processos e suas comunidades, tem um centralidade clara no conjunto dos ODS e suas metas. É um fio que costura aspectos econômicos, sociais e ambientais por toda a Agenda. Pense comigo: a produção de alimentos seguros, suficientes e saudáveis são centrais para erradicação da pobreza e da fome (ODS 1 e 2), geração de renda e desenvolvimento rural (ODS 8, 10), consumo e produção responsáveis (ODS12), resiliências às mudanças climáticas (ODS13) e uso sustentável dos recursos naturais (ODS 6, 14 e 15). Estas questões ainda dialogam claramente com os demais ODS: nexo alimentação-nutrição-saúde (ODS 3,); educação de qualidade e igualdade de gênero que favoreçam o empreendedorismo das populações rurais, principalmente jovens e mulheres (ODS 4 e 5); automação e agricultura de precisão, agregação de valor na agroindústria, bioeconomia sustentável, que favoreçam o trabalho decente, a inovação agropecuária e oportunidades na interface agricultura-indústria (ODS 8 e 9); energia renovável a partir de biomassa, microgeração de energia no meio rural (ODS 7), agroturismo, agricultura urbana e peri-urbana, gastronomia, apoiando a sustentabilidade de comunidades rurais e urbanas (ODS 11). Sem esquecer o recado do nosso mestre Roberto Rodrigues: Agro é Paz (ODS 16).

Essa centralidade da agricultura sustentável ficou evidente quando analisamos a os ODS e metas frente aos desafios da pesquisa e inovação agropecuária brasileira. No exercício que fizemos na Embrapa, encontramos alinhamento potencial destes desafios com 75 das 169 metas, em todos os 17 objetivos. A partir do exercício inicial montamos uma rede interna para compilar conhecimento, práticas, tecnologias já disponibilizadas pela Embrapa e parceiros que podem contribuir com os esforços de alcance de metas dos ODS, o que resultou em uma coleção de e-books (disponível em https://www.embrapa.br/objetivos-de-desenvolvimento-sustentavel-ods). A gestão do conhecimento científico e tecnológico disponível é essencial para otimizar o processo de inovação que vai impactar no alcance destes objetivos.

Há praticamente quatro anos do lançamento da Agenda 2030 pela ONU, o progresso ainda é lento, faltam dados e metodologias para indicadores, há retrocessos em indicadores globais ou regionais e ainda estamos deixando bastante gente pra trás. Nenhum ator isolado ou tecnologia isolada resolve as questões colocadas nos ODS, mas uma boa coordenação entre setores público, privado e sociedade civil organizada, bons instrumentos e políticas públicas baseadas em evidências podem impactar positivamente no desenvolvimento sustentável do país.

 

 

[1] Relato presente no documento Fixing Food 2018 : best practices towards the Sustainable Development Goals - The Economist Intelligence Unit & Barilla Center for Food and Nutrition

[2] Pensando em agricultura como todas as formas de produção agrícola, pecuária, pesca e aquicultura e produção e manejo florestal, englobando os recursos naturais envolvidos e seus serviços ambientais.

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